Sobre tomates, pug, galinha e pessoas

No mesmo domingo em que a Patricia comeu o pão de tomate, Sindomar estava hospedado com amigos na Casinha, perto de onde é servido o Café no Sítio.  Ele conta neste depoimento o que aconteceu com um “irmão” daquela fruta que teve a sua história contada em “O tomate do pão da Patrícia”, e que pode ser lida ao clicar aqui.

As legendas e a última foto são do editor.

Sobre tomates, pug, galinha e pessoas

Por Sindomar Marques

(Texto e fotos)

 

Um dos “irmãos” do Tomate do pão da Patrícia não teve tanto glamour como o personagem da postagem anterior. Ele, o irmão, foi lindamente deliciado junto com alface e repolho na salada que fizemos para o almoço, no mesmo domingo ardente de 05/02/2017, mas sem direito a fotos. Desfaço aqui a injustiça com o relato sobre o anônimo tomatinho doce que o Marcelo e o Tim trouxeram, para deleites meu e do meu irmão, o Sol, quando foram conhecer a horta, uma cortesia da pousada.

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Sindomar na queda d’água da margem direita do Rio das Águas Frias

No dia anterior tínhamos sido convidados pelo Tarcísio para o Café no Sítio, mas como havíamos programado uma visitinha numa queda d’água do outro lado da ponte e não sabíamos o tempo que levaríamos, declinamos do convite. O recalque viria um pouco depois.

No domingo, após a caminhada e o banho na cachoeira, com fome, cheguei a dizer: “Acho que deveríamos ter confirmado presença.”. O silêncio de todos, enquanto o Sol atacava o pão que ganhamos na cesta entregue na chegada à Pousada, foi a confirmação da minha assertiva. Mas a vida é feita de escolhas e, verdadeiramente, não é possível se arrepender quando se aprecia cada momento escolhido com paixão. Assim foi então.

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Açude no caminho para o rio

Antes, no caminho até a queda d’água aproveitei para registrar o contraste dos verdes da mata e não resisti à uma pera que olhava para mim e eu para ela. Réu confesso. Mas resisti à tentação de averiguar se haviam ovos no ninho de passarinho que está no pé de bergamota. Tive medo de quebrá-los, como ocorreu quando era criança e até hoje não me perdoo. Neste “crime” não fui reincidente e espero compensação de um pelo outro (rs…).

Já estávamos de volta quando o grupo de amigos da Patrícia chegou. De longe, o cabelo altamente loiro de uma delas, que vim saber depois ser a Patrícia, chamou a atenção: “Bonita”, concordamos todos, especulando se seria ela a filha do Tarcísio.

Depois de breve espaço de tempo na casa dos donos do Sítio, eles desceram para se refrescar no rio, no mesmo local onde estivemos após o banho de cachoeira e de onde saímos para preencher o vazio do estômago, com arroz e galinha caipira, acompanhados da salada que incluía o irmão do tomate do pão da Patrícia. Ele estava no MEU prato, já que os demais já haviam comido os seus.

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O banho que Sindomar não quis tomar

O calor estava ardendo, de matar, de modo que após algumas ruminações, resolvemos também voltas para nos refrescar nas águas geladas e revigorantes e voltamos para o rio. Deparamo-nos com o grupo de amigos, deitados ao leito sob a sombra das árvores da mata ciliar e, sem muitos rodeios, todos, menos eu, entraram na água. Discretos, mas sem rodeiros.

Eu preferi voltar para capturar imagens dos cavalos em semi-círculos e outras coisinhas que  meu olhar infantil vislumbrou no caminho da Casinha até o rio…

É que como não sei nadar (ainda que as correntezas não sejam assustadoras) preferi não “dar bobeira” na frente do outro grupo e me mantive à margem, nas pedras, observando, minutos a fio, o comportamento de duas pequenas aranhas numa pedra (sou meio ligado nas vidas pequeninas).

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“sou meio ligado em vidas pequenas”

Foi quando dois do grupo alheio se jogaram na água, para em seguida subirem todos.

Os demais, destemidos nadadores, aproveitavam em águas mais fundas e eu, sempre com a câmera alerta, tietava a natureza. Ficamos por ali um tempo mais, registrei algumas imagens da mata refletindo na água, brincamos um pouco  com o dog anfitrião, até que também resolvemos subir.

Ao chegar na Casinha e ver o Tarcísio vestido num avental verde (eu acho! Tudo naquele lugar é verde, então.) servindo o  grupo de amigos que ria alto, declaradamente à vontade, veio o recalque anunciado linhas atrás, E não tínhamos reservado nosso lugar ao sol, no pico da colina, no quintal da casa dos anfitriões.

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Um “pé de vento”, rápido e forte, ondulou o açude junto da Casinha

Enfim, para fotografar meu próprio entusiasmo, peguei o celular e resolvi fazer fotos ao redor. Também filmei um vendaval que, do nada começou e assim também parou, sendo suficiente para que registrasse a potência do vento nos eucaliptos ao fundo e nas demais plantas da propriedade. Dava para ver as ondinhas que se formavam no açude em frente a Casinha e o pequeno pinheiro inclinado com a força do vento.

Resolvi experimentar outro pico e fui até onde havia uma plantação de laranjas (eu acho também) que ficava bem perto, pouco abaixo de onde o grupo tomava café. Os risos ficaram mais alto e era gostosa a energia de pessoas se divertindo, como nós, sem pressa. Registrei uma e outra outra cena e já voltava para a Casinha quando ouvi gritos e risos sobre o que parecia uma pequena confusão.

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Vincent, pug da Jana, desiste da galinha

Passou por mim uma galinha esbaforida e atrás dela um pugzinho atentado. Foi tão engraçada a cena que não me contive e registrei o momento em três lances. Acho que a penosa foi a única que não achou graça alguma.

Lá da varanda da Casinha dava para ver o Diego (Rivera) curioso com o que se passava perto do “Dad” (eu).  A Frida (Khalo) certamente estava aprontando alguma com alguém, dentro da casa, pois não a deixei mais sair depois que quase levou um coice de um dos cavalos que ela não deixava em paz desde a nossa chegada no dia anterior. Ela e o Diego não paravam de bispar os cavalos.

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Frida Kahlo e Diego Rivera impedidos de correr atrás dos cavalos

Voltei para a Casinha e me permiti divagar nalguns dos livros que lá carinhosamente estavam. Viajei nas imagens de um fotógrafo que iniciou sua carreira como pintor, folheei um livro de artes de uma catarinense, fotografei uma gravura na parece e me permiti esquecer que às cinco e meia da manhã seguinte eu tinha que ir embora.

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O que Sindomar não sabe é que a gravura é de autoria da Patrícia, a que comeu o pão de tomate, sob a personalidade de BLANCAh. Este desenho é o original da capa do último disco de Ran Salman

Me diverti lendo as orações dos animais (do rato , do gato do boi  e do galo …) de “Carmen Bernos de Gasztold”, traduzida por Carlos Drumond de Andrade). Quase bolei a “oração da galinha em apuros”.

“Oração do Rato

Sou tão cinzento, meu Deus.
Lembra-se de mim? Sempre vigiado, Sempre caçado,
vou roendo mediocremente minha vida.
Nunca ninguém me deu nada.
Por que me acusam de ser rato?
Não foi o senhor quem me criou?
Só peço uma coisa: ficar escondido.
Me dê só com que matar a fome
longe das garras
daquele demônio de olhos verdes.

Amém.

Oração do Gato

Senhor,
eu sou o Gato.
Não, precisamente,
que tenha alguma coisa a lhe pedir.
Não peço nada a ninguém.
Mas se por acaso o Senhor  tivesse 
aí nos celeiros do Paraíso
um ratinho branco
ou um pires de leite.
(…)

Depois fui dar atenção aos amigos e aos dogs e saborear uma cervejinha bem gelada, contemplando o que eu realmente sou: um detalhe da natureza.

Ah, sobre o tomate, o irmão do tomate do pão da Patrícia, não tenho fotos, mas tenho gratidão. Comer é  um ato de carinho e saber a procedência do alimento, para mim, vale MUUUUUITO, como o mel extraído pelo Sr. Otávio, na segunda quinzena de novembro.16587074_1156180041117563_7746516546960447879_o

Então, o tomate que já era bom, ficou melhor quando soube que ele bem poderia ter ido para o pão da Patrícia, mas veio para a salada do Sindomar e que um só pé fez mais de uma pessoa feliz. Com carinho foi produzido e com carinho foi saboreado.

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Jana e patrícia no Rio das Águas Frias antes do pão de tomate (foto do editor)

Por fim, vi que num lugar chamado Pedras Rollantes, de fato, até as pedras se encontram. O Tarcísio e a Lu conhecem duas pessoas em comum a mim. O Milton e a Jana Bonett. Esta, vim a saber depois, estava entre os amigos da Patrícia, aquele grupo que comeu o irmão do tomate da salada do Sindomar. É assim as pessoas se encontram onde as pedras rolam. Não comi o pão de tomate, mas sou grato a todos os instantes que vivi pelo “sacrifício gastronômico”

Gratidão, é uma palavra que deve ser exercitada a cada instante!

Sindomar Marques